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#2 – Herança genética e flacidez de caráter

outubro 17, 2009

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Enquanto os adesivos se desprendiam, as pontas dos cabelos de Tulipa se abriam ressecadas. Pontas duplas, quiçá triplas, ameaçavam seu senso estético e sua assepsia. Tem desses problemas desde menino, coisas do clima e coisas da herança genética de seu pai. Sua mãe sempre lhe dizia que, se fosse por ela, Tulipa seria perfeito, um mamífero exemplar flanando sua presença pelo mundo, um macho alfa de vasta cabeleira desembaraçada e libido incontrolável e ameaçadora. Lembrou das palavras de sua mãe e chorou no vestiário vazio. Tulipa, nu, enrolado na toalha velha, decidiu raspar a cabeça e seguir a vida. Medrado, de volta do quarto andar, amassa o papel da advertência recebida, limpa o filete de sangue no canto da boca e recosta-se à porta do vestiário.

– Tulipa, morreu aí dentro?

– Calma, Medrado! Bateu maior tristeza agora… Tô indo.

– Hein? Que houve?

– Nada, cara. Os adesivos se desprenderam e lembrei de umas coisas da infância.

– Porra, Tulipa! Lembrar de infância no meio do expediente? Se ainda fosse de mulher…

– Mas tu é babaca mesmo, hein! É coisa séria pô. Chorei e tudo. Mal consigo me mover.

– Hahahaha

– Medrado, vou raspar a cabeça e vou pedir transferência pro bolo do Alejandro Sans!

– Que isso, cara! Decidiu isso aí dentro? Tá drogado? Que tá acontecendo? Vou entrar nesse vestiário.

– Medrado, sou um homem sensível, um latino de sentimentos aflorados, não sou um funcionário público qualquer. Sinto que preciso mudar aspectos da minha vida, não tente me deter ou me chantagear.

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4 Comentários leave one →
  1. Bruno permalink
    outubro 18, 2009 4:36 am

    Continua!!! 🙂

  2. Elmo Thompson permalink
    outubro 18, 2009 7:54 pm

    sabe, é uma desesperançada esperança o que sinto por aí, não apenas no por debaixo dessas palavras, mas por aí, em sorrisos que temos de forçar e mudanças que nos vemos obrigados a fazer. E, no final das contas, valeu a pena? O Brasil tem a Copa, o Rio as Olimpíadas, helicópteros caem por aqui e ainda tentamos ativar esse orgulho latino de sol que brilha e rebolados esborrachados pelos ares

  3. abril 11, 2010 6:31 pm

    Gente, tem um problema de continuidade no post, ao menos no que está dito tem.
    no primeiro capítulo, Quando o supervisor (chamado no vocabulário sugerido de ponta) chega e vê medrado colando os adesivos, o leva para o quarto andar (o que é sugerido como um lugar de interrogatório, ou algo do tipo, uma sala pra prestar contas com as regras da futuro público), nessa hora, tulipa está colocando o cinto, momento em que medrado o que pede para colocar os adesivos para que terminem logo.
    no segundo capítulo, tulipa está de tolha, pensem, se ele estava pondo o cinto, induz pensarmos que ele estava já de banho tomado, e se vestia para sair da empresa, ou começar o turno e resolveu tomar banho lá, enfim. E medrado que tinha sido levado pelo supervisor reaparece no segundo capítulo (do lado de fora do vestiário, como se tivesse o esperando. Talvez a passagem onde ele prestas as tais contas por ter sido pego devesse ser tratada.
    E outra: a sugestão quanto aos bolos é que (como está no prólogo) eles sejam quase seitas/partidos/milícias/células de um poder auto-organizativo paralelo ao das corporações/empresas de administração compartilha (como sugiro no prólogo), então não seria possível pedir transferência de um bolo para outro, mas sim filiar em outro bolo (os bolos são quase partidos).

    Vamos lá.

  4. maio 11, 2010 10:25 pm

    Hum, sem você nunca descobriria todas essas coisas sobre o que escreveu. Descobri um monte de coisas lendo o comentário. Beleza! Mãos aos detalhes!

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