#3 – Cyberpunks
Sair de uma repartição era uma tarefa reflexiva. Os prédios foram dragados por blocos condominiais, e esses por corredores externos, de modo que você poderia sair de uma repartição mas no fundo ainda estaria dentro dela. Então Medrado foi dar uma volta para espairecer o estresse que passou no quarto andar e para dar um tempo para Tulipa. Reafirmou para ele mesmo que às vezes é melhor não dizer nada, e só dar um tempo.
Passou por um bulevar conhecido como fura-bolo, famoso pelo seu degrau que virou micropalanque. Nele estava sentada uma garota estranha, de cabelos curtos demais pra uma garota, colete e gravata. Medrado conhecia Bjørn de vista, e não entendia o porquê dos costumes tão diferentes, já que a cidade dela era da mesma empresa que essa.
- Já que é pra ser moderno, pra quê gravata?
- É do tempo em que as pessoas colavam adesivos em armário.
- Mas sabe, pelo menos eu defendo alguma coisa. E você?
- Hmm, o papo melhorou. Eu não preciso de bolo. Quando eu ataco um mainframe…
- Beleza, lindinha, o tempo de falar inglês já foi.
- Tá, banco de dados, que seja. Essa empresa controla cinco cidades na região, e ela tem um banco de dados. Quando eu invado esse banco eu não preciso nem tirar nada do lugar; sai no jornal. E isso não descola no vapor.
- E o que você quer dizer para as pessoas com isso?
- Que pela primeira vez na vida a gente pode ter uma revolução sem slogan, ideologia ou bandeira. E às vezes pode parecer que nós estamos agindo em bando. Mas cada um é dono de sua própria cabeça.
Ele saiu mudo e continuou sua caminhada pelas alamedas da repartição. Os próximos dias passaram quietos. Quis dar ideias ao Ricky Martin, mas faltou coragem. Mas o pior nem foi ver o quanto o bolo era retrógrado. Viu Tulipa, sumido há duas reuniões e de cabelo raspado, passar com um soco inglês de resina na mão. Aquilo sim era rudimentar.
